A idade feliz e a solidão

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(Arlete Gudolle)
Sou fã cativa do Globo Repórter. A preferência recai sobre os programas cuja temática versa sobre a natureza, os animais e ressalta a beleza de países, cidades, mares, montanhas ou rios. Os que se reportam a pessoas, hábitos alimentares ou qualquer outro tema de menor relevância induzem-me ao sono. Entretanto, o que abordava a solidão da velhice entre os britânicos ascendeu meu interesse. De olhos e ouvidos bem abertos, houve, entre mim e os entrevistados, uma empatia comovedora. Inicialmente por ter comprovado que a decantada idade feliz, há muito, me concedera a indesejada condição de idosa. Percebi que envelhecer, um de meus maiores temores, era algo que deveria aceitar e tentar administrar as consequências decorrentes de ter me esparramado no tempo.

Dei-me conta também que, analisando-me no espelho, a imagem refletida nele resultou em rascunho mal-acabado do que fui nas áureas fases da juventude. Além da degradação física e da saúde, capturei uma nova percepção da vida. Mais desalentador que a decadência física, é a de casal que muito se ama não reservar espaço para cultivar amigos. Ao falecer um deles, o sobrevivente, se tem filhos distantes ou se os tem muitos e pouco os amou, dá-se conta de que deverá aprender a conviver com a solidão. Essa lição capturei ao assistir ao depoimento de viúva inglesa que denunciava o seu desamparo. Percebi ainda que o acúmulo dos anos pode nos emurchecer o corpo. Só não pode nos enrugar a vontade de viver e o insistente deleite de sonhar.