A introjeção dos preconceitos

Publicado por em .

(Arlete Gudolle)
Há situações sociais que induzem a reposicionar valores e analisar a profundidade das discriminações. Se olharmos, sem censura, para dentro de nós, focarmos em fatos praticados ou assistidos, perceberemos não parecer tão bonzinhos como nos projetamos. Somos humanos e, por isso, seres propensos a julgar e sermos julgados. Nesse foco, lembrei-me de uma cena passada com meu neto. Fomos à loja de brinquedos para que o menino escolhesse um de seu agrado. Com um senso de observação incomum para criança de quatro anos, nada lhe escapava. Ao escutar a gritaria de uma menina, puxou-me a roupa indignado: Vovó, a menina feia não gostou da boneca preta! Fiquei estarrecida! Por que aquela cena despertara a indignação dele? Percebi então que garota e boneca tinham a mesma cor, mas a mãe era branca.

Na reflexão do guri, menina negra era feia e deveria comprar boneca também negra. Pura e simples identificação! A mãe insistia na compra da boneca pretinha e a garota, aos berros, dizia: Essa é feia! Não quero! A minha é a branca! Analisem a reação das duas crianças e reflitam se o problema não está introjetado tanto em quem discrimina quanto em quem sofre o preconceito. Por trás dessas atitudes, assimiladas ou inconscientes, existem razões históricas de escravidão e miséria cujas sequelas são irremovíveis e se perpetuaram por toda a sociedade moderna. Já imaginaram se os escravizados fossem brancos e negros, os senhores do engenho, os detentores do poder? Não seriam os brancos os discriminados?