Doces reminiscências infantis

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(Arlete Gudolle)
Junto com o frio intenso desta semana, recordei-me das férias de julho de minha infância. Senti saudades das noites em que comia, sem pressa, bifes preparados na chapa de fogão de lenha, de batata doce assada nas cinzas, produto final da lenha que queimava sem economia. O calor que emanava do aparelho rudimentar doméstico fazia-me sentir como se estivesse usufruindo de temporada muito especial. A felicidade se ampliava ao sorver sopa, enriquecida com legumes colhidos da horta e galinha criada solta no pátio, cujo aroma exalava além da cozinha de minha casa. Lembrei-me, também, do banho de banheira com água aquecida em chaleiras e temperada com álcool que, segunda minha mãe, afastava resfriado e favorecia a retirada de sujeiras escondidas.

Trago, bem nítida, a feitura de pães caseiros, rosquinhas de milho, broas de polvilho, geleias, marmelada, manteiga, salame e queijo, produtos destinados a saciar a fome da criançada nas longas tardes de férias. Era um tempo sem pressa, sem relógios, em que as coisas eram simples, feitas hoje, ganham destaque e se sofisticam em supermercados e lojas especializadas. Mesmo que o inverno parecesse longo, a angústia de que as férias logo terminariam, intensificava a vontade de brincar ao ar livre e esticar, ao máximo, a hora de dormir, cujo sono era antecipado pela leitura de um bom livro. No retorno às aulas, a tristeza amenizava com a expectativa de como seriam as férias de verão. Doces lembranças em tempos de incertezas neste país sem rédeas.