Redenção

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(Arlete Gudolle)
Hoje acordei com alma de brisa, sedenta por perfume de flores, desejo de comer bergamotas para deixar o sumo de meus erros evaporarem ao sol. Acordei com os olhos cheios de infância para correr na chuva, andar pelas sarjetas, tecer cascatas nas águas acumuladas. Acordei sequiosa de abraços bem apertados, saudosa dos beijos que não dei, das carícias sonegadas, dos segredos que não compartilhei, da gargalhada que retive. Acordei com fome de justiça para tornar mais reais os sonhos que deixei de sonhar, esquecer os dias inúteis, as palavras ferinas, os dedos em riste, as acusações sem sentido. Acordei com muita pressa porque preciso pedir perdão por coisas que nem fiz, não por falta de vontade, mas, comedida e em tempo, abortei a intenção.

Com borracha poderosa, quero apagar o tempo perdido com coisas inúteis, reuniões sem sentido, tardes desperdiçadas em busca do nada, tarefas malfeitas, ofensas praticadas e recebidas. Com os olhos bem abertos, vou avolumar as asas dos devaneios porque percebi que envelhece mais rápido, quem deixa de sonhar ou torna diminutos os sonhos. Plantarei mais flores, dedilharei mais poemas, recitarei versos ao vento para alimentar a alegria e para certificar-me de que ainda detenho o poder sobre o que penso, ainda articulo com perfeição as palavras e escuto até as lamúrias do vento. Assim, encantada com a vida, em paz com meus fantasmas, ciente de que ainda tenho coisas a realizar, poderei dormir o sono dos justos e acordarei com mais vontade de viver.