Sutilezas

Publicado por em .

(Arlete Gudolle)
O longevo ato de viver acumula sutilezas, despercebidas àqueles que se embrenham na reiteração do cotidiano e deixam escapulir detalhes singelos, poéticos, capazes de abrandar a rotina da passagem do tempo. Uma folha que se desprende da árvore, um matiz diferenciado das flores que fenecem, um novo tom das paredes avivadas por uma réstea de sol. Até as sombras dos postes nas ruas tomam novas configurações uma vez beijados pela claridade da aurora que surge depois das tempestades. Um pôr de sol que empresta novas cores e nuances à tela gratuita que a natureza pinta. O gotejamento da chuva que escorrega em telhados. O tamborilar da água que compõe estranhas melodias ao usar a vidraça de janelas tal piano desafinado ou repique, responsável pelo improviso na bateria de escolas de samba.

A semente que rasga a terra e se anuncia uma planta plena de vigor. A mãe que amamenta o filho e a retribuição dele através da mão que acaricia a fonte que o alimenta. O agradecimento feito pelo olhar carregado de toda a ternura do afeto. O sugar do mate que sacia o vício, a mão que se estende em hospitalidade. A retribuição do gesto que se pontua no elogio ou na singela conversa sobre trivialidades, se vai chover ou se a seca continua. O farelo do pão que se esparrava sobre a limpidez da toalha, o desenho que bordeia o prato que acolhe o alimento, a transparência do copo que recolhe o líquido. As pregas retidas no lençol testemunham um tempo de amor ou inércia denunciadora do cansaço. Tudo é vida.