Éldrio Machado: Secretário de saúde na linha de frente contra o coronavírus

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Éldrio Machado, secretário de Saúde.

Santiago – O comunicador, ex-secretário de Gestão também é advogado e tem especialização em Gestão Pública. Mas foi na secretaria de Saúde que Éldrio Machado virou um ás em gestão, comandando a guerra ao coronavírus. Meses atrás, ao posar para uma foto ao lado do ministro Henrique Mandetta, jamais imaginaria que estaria trabalhando de forma tão sintonizada aos passos recomendados por seu ministério.

Como vê essa missão de comandar uma das principais secretarias do governo Tiago? Quais as mudanças?
Assumi em 2019. O prefeito me passou a missão de humanizar o serviço e servir de elo entre população e profissionais, primando por um serviço de qualidade, com planejamento. Tenho me dedicado muito, com algumas situações importantes: acabar com as filas no Centro Materno e postos, criação do sistema de agendamento de consultas e serviços. Conseguimos contratar médicos para todas as unidades da Família, coisa que há muito não se tinha. E a criação do Posto de Atendimento Municipal (PAM) foi a solução pra acabar com as superlotações no Pronto-Socorro do Hospital. Para 2020, conseguimos aumentar a captação de recursos para o SUS e melhorar os serviços para torná-los mais acessíveis.

Essas melhorias contribuíram para o controle da pandemia? Por não ser médico, teve alguma dificuldade?
O fato de não ter formação na área médica não foi impeditivo. O secretário de Saúde precisa ser gestor, ampliar recursos, otimizar serviços e ter o suporte. E temos todo o corpo técnico, com 16 médicos, 14 enfermeiros, técnicos de enfermagem, dentistas, agentes de saúde, fiscais, agentes de endemias, servidores em geral. Há muito diálogo e isso abriu caminhos. Fomos o terceiro município gaúcho a elaborar um Plano de Contingência para o coronavírus, unindo o Grupo Hospitalar, Hospital Militar, Exército, estratégias de saúde… Fizemos 11 testes; um deu positivo e os demais, negativos; com monitoramento de mais de 100 pessoas e muito controle.

Qual é o investimento geral neste ano e qual o total investido só em função da pandemia?
Em 2019 investimos 18%. A obrigação é de 15%. Neste 2020, não temos ideia, mas deverá superar 16 milhões. Recebemos 150 mil para investirmos no Centro de Triagem e custeio, usando de recursos próprios para investir no sistema de proteção de servidores, contratação de médicos e profissionais da saúde.

As pessoas comparam muito as doenças, a letalidade: a gripe A matou mais, o trânsito mata mais… e que não haveria motivo de impedir o comércio
Nas ações contra o coronavírus, seguimos protocolos e orientações da Organização Mundial de Saúde e do Ministério da Saúde, além da Vigilância Estadual. A letalidade do coronavírus apresenta percentuais diferentes em cada país, cada região. E o número de mortes é muito considerável, pois preocupa a forma de contágio, que é muito grande. Até o momento, para os organismos internacionais de saúde, o distanciamento social é a melhor forma de prevenção e de evitar a disseminação. Porque não há sistema hospitalar que dê conta da pandemia, não há leitos suficientes, nem equipamentos, nem profissionais, nem testes. Seguimos padrões internacionais de saúde nas nossas ações.

O senhor vê relação da Itália com o RS? O que nos torna diferentes?
O Ministério da Saúde está agindo harmonizado com estados e municípios, observando características regionais. É muito difícil comparar com a Itália. A nossa vantagem é termos saído na frente sem esperar o primeiro caso. Arrancamos uma semana antes com decreto, isolamento social. Prevenimos e fizemos as orientações, monitoramento aos suspeitos (sempre o contato diário). Nosso sistema está atento, orquestrado. Estamos confiantes de que vamos superar.

O Estado tem mil leitos de CTIs, pode ampliar para 2 mil. Em Santiago, o que foi ampliado?
Antes de termos a confirmação da doença reunimos as autoridades e apresentamos o Plano de Contingência e passamos a estudar também a ampliação de leitos. De ínicio abrimos o Centro de Triagem Covid, com médicos, equipe treinada para tratar pessoas com sintomas e proteger a nossa principal instituição hospitalar, contando com o Exército. O Grupo Hospitalar, o Hospital Militar e as unidades de saúde passaram a planejar a ampliação de leitos, isolamentos e ações integradas. O Hospital ampliou de 10 para 15 de UTI; cinco com isolamento. Criou quatro quartos isolados. Esses quartos, poderão ser ampliados para 40 leitos de enfermagem exclusivos.

O ginasião poderá ser útil?
O próprio Exército e a Prefeitura possuem plano para montagem de um hospital e ambulatório de campanha num ginásio e apoio e retaguarda do hospital, se for preciso. Também o Hospital comprou todo o equipamento para duplicar a capacidade de cada respirador, aumentando de 15 para 30, o atendimento.

Quando o senhor e sua equipe começaram as medidas de restrição, houve muita resistência?
A população entendeu. Passamos a fortalecer a Vigilância Epidemiológica aumentando de 4 para 10 profissionais. Passamos a monitorar todos os acessos à cidade. Fizemos mais de 20 mil abordagens e mais de 300 casos para investigar e também monitorar. Acompanhamos o tempo todo o rapaz que teve a doença até o momento em que a avaliação clínica o declarou curado.

A tomada de decisões foi antecipada. Isso terá um efeito de achatar a curva do vírus?
Todos os nossos técnicos, médicos, enfermeiros, assim como os profissionais envolvidos, possuem a mesma convicção de que a nossa tomada antecipada de ações preventivas e a colaboração da população vão trazer reflexos positivos. Não vamos sofrer tanto quanto outros municípios que não tomaram esse caminho.

Dependemos da produção primária, do comércio… Há empresários que fazem cálculos sobre índices de desemprego. Como vê essa situação?
Em Santiago não tomamos iniciativa que não fosse seguindo orientações e decretos do Estado e também do Governo Federal, que decretou a Calamidade Pública. Não inventamos nada. O que aconteceu, a população entendeu. Estamos muito solidários a questão econômica, que começa a assolar os trabalhadores, os empresários. E nossos profissionais de saúde estão aptos para auxiliar, quando for da decisão de retomada gradativa, para treinar e capacitar sobre questões de segurança e higiene. E neste momento, a Secretaria de Desenvolvimento Social está engajada na arrecadação de alimentos.

A constituição impede que se prenda alguém que anda na rua, pelo direito do ir e vir, no avanço de uma calamidade haveria medidas mais restritivas?
O direito de ir e vir do cidadão é sagrado e continua sendo respeitado. Todos os decretos respeitam isso, da pessoa poder ir aos mercados, farmácias, buscar algo essencial a sua vida. Não tem o que fazer. O que fizemos foi pedir a colaboração, o entendimento e há muita colaboração neste sentido. Precisamos muito que a comunidade faça a sua parte.

Como espera que a gente vá sair dessa pandemia e em que prazo?
Estamos cumprindo o decreto estadual e nossa obrigação é manter a segurança, frear a pandemia. Abril será decisivo em relação aos efeitos da doença, por isso precisamos da colaboração da comunidade. Sabemos das dificuldades das pessoas, estamos solidários, aperta o coração, como pais, como cidadãos e temos uma grande equipe exposta aos riscos. Temos um plano para a retomada da economia assim que isso for possível, assim como estamos desenvolvendo campanhas de auxílio emergencial para centenas de famílias neste momento.