‘Já deu pra mim, chegou a minha hora’

‘Já deu pra mim, chegou a minha hora’

Gláucia Lançanova com o irmaõ Éderson e a sobrinha Kamily.

Assim pensou a santiaguense que ficou 22 horas perdida
O último domingo, 17, ficará marcado na memória da santiaguense Gláucia Lançanova da Rosa, 33 anos (solteira). Ela passou 22 horas perdida num fundo de campo em Capão do Leão (Perto de Manoel de Freitas-Unistalda), a 40 Km de Santiago. Seu desparecimento foi noticiado na manhã de segunda e comoveu a comunidade, que se uniu em orações e muitos foram à sua procura. As buscas começaram ainda no domingo, mas ela só foi encontrada às 14h de segunda. Gláucia mora no bairro Gaspar e trabalha na Beltrão Calçados.

Como tudo aconteceu
Domingo pela manhã, Gláucia e seu irmão Éderson foram na propriedade de um amigo. Lá, acabou a carga da bateria do carro. Então, eles vieram de carona em busca do socorro. À tarde, Éderson e o mecânico retornaram de carro e Gláucia foi de moto (não havia mais espaço no carro) para ajudar a carregar uma lenha. Ao ficar para trás, saiu da estrada principal e pegou uma estradinha no campo. Foi quando se perdeu. Ela ainda conseguiu falar com o irmão pelo celular, sendo orientada a voltar pelo mesmo caminho, mas as dicas não deram certo e o telefone não deu mais sinal.

Essa foi a noite mais longa da sua vida
“De tanto andar, a moto atolou num banhado e a correia escapou. “Larguei a moto e sai gritando. Aí começou a escurecer e a única alternativa era ficar quieta e esperar amanhecer. Me deitei e protegi a cabeça com o capacete para esquentar uma parte do corpo e não sofrer uma hipotermia. Também pedia a Deus que guardasse minha vida porque não queria morrer de frio”. Entre um cochilo e outro, Gláucia sonhava que estava sendo resgatada pela família com um ‘monte’ de gente. “Era o que eu sonhava a noite toda, a mesma coisa”, diz ela.
Ainda antes de amanhecer, Gláucia começou a caminhar, mas depois percebeu que estava andando em círculos. “Demorou para esquentar meus pés, não os sentia mais. Em certas horas da noite eu batia os pés para ativar a circulação e só esquentaram depois de andar por quase uma hora.

“Sem água e comida, chegou minha hora”
Ao sentar para descansar, Gláucia avistou um carro e viu o caminho que deveria seguir. “Achei a moto, mas não consegui arrumar a correia e fui empurrando para atravessar um mato e chegar na estrada. “Quando atravessei e vi que não tinha saída, me desacorçoei. Confesso que pensei: já deu pra mim, já vivi tudo o que tinha que viver. Não é possível! Em quase 24 horas, se não enxerguei nenhuma pessoa, não achei nenhuma casa, não acharei mais. Sem água, sem alimento, pensei: deu pra mim! Chegou minha hora!”, era o que pensava Gláucia, que já não tinha mais forças para andar.

‘Já deu pra mim, chegou a minha hora’

O drone salvador
Gláucia conta que cinco minutos após ter “desistido”, enxergou algo vermelho de onde desceu gente. “Gritei e fiz sinal, mas não me enxergaram. Quando vi um drone, comecei a gritar, acenar, pular, apontar pra moto. Nunca imaginei que fossem os bombeiros. Para mim, estavam só meu irmão e uns amigos me procurando. Quando vi que se aproximaram, e que era meu irmão, não me aguentei e chorei”.

Um mutirão nas buscas
As buscas começaram na noite de domingo. Primeiro, pelos familiares. Depois, pelos amigos e uma guarnição da Brigada. Na manhã de segunda, somaram-se os bombeiros de Santiago, de Santa Maria (com cães farejadores), Polícia Ambiental (com drone) e mais de 60 pessoas. “Pra mim, era só minha família e uns amigos que estavam sabendo. Eu não tinha noção da repercussão”. Me impressionei com o carinho das pessoas. Haviam feito correntes por mim até em outros estados. Queria poder abraçar cada um que me ajudou, porque uma simples oração é uma grande ajuda”.

‘Já deu pra mim, chegou a minha hora’

Agradecimento
A família agradece à Brigada, aos Bombeiros de Santiago – em especial aos soldados Paines, Dalenogare, Iuri, Monteiro (Polícia Ambiental); aos bombeiros santa-marienses: Brum e Silveira. “Os bombeiros são fantásticos. Eu já admirava o trabalho deles, que é o de salvar vidas. Só que eles me salvaram e se pudesse erguê-los num pedestal eu os ergueria. Agradeço a todos que deram apoio à família; à imprensa que ajudou na divulgação e a todos que contribuíram”.

Quanto tempo a pessoa aguenta sem comida e água?
A média é de quatro dias, no verão. No frio, esse tempo pode chegar a sete dias, dependendo das condições físicas de cada um. Sem comida é possível ficar até um mês, mas também depende de cada organismo e do clima. As chances de sobrevivência em temperaturas amenas são maiores. (Fonte: Revista Superinteressante).