Mais Freire… nunca menos

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(Valdo Barcelos)
Momentos de ânimos exaltados e posturas sectárias são pródigos em produzir besteiras de todo tipo. Refiro-me ao que se tem dito sobre a presença do educador Paulo Freire (1921-1997) nas escolas e universidades brasileiras. Aos que se colocam contra as ideias freireanas digo: fiquem calmos. Fiquem tranquilos. Freire nunca foi presente no cotidiano de nossas escolas e muito menos nas universidades. Digo presente de fato. Claro que existe muita “discurseira freireana”. Muito freireano de oportunidade. Porém, no cotidiano das salas de aula se vê de tudo, menos a presença real das proposições de Freire. Isso mostra o desconhecimento desses desafetos de Freire sobre a caótica situação da educação brasileira. Agora, àqueles(as) que estão com medo de serem perseguidos por adotarem ideias freireanas digo o mesmo: fiquem calmos. Fiquem Tranquilos. Estão com medo de quê? Se admiram, sinceramente, o velho mestre não há o que temer. Devem saber que se teve algo que Freire nunca teve foi medo. Sempre encarou de cara limpa e olhar manso e corajoso, àqueles(as) que o atacavam, que difamavam. Mesmo os mandaletes da ditadura, Freire enfrentava com altivez e sem arrogância. Freire contava histórias sobre passagens que teve pela prisão na ditadura. Vamos a uma: certa feita, o comandante do quartel onde estava preso chamou-o no seu Posto de Comando e falou: “Senhor Paulo Freire, sei que o senhor é um grande alfabetizador de pessoas adultas. Pois aqui no meu quartel tenho muitos soldados que não sabem ler nem escrever. Eu quero que o senhor ensine essa gente a ler e a escrever”. Freire conta que só não caiu sentado porque assim estava. Pensou um pouco e deu o troco ao entojado comandante: “Mas meu comandante, é por fazer justamente o que estás me pedindo que vocês me prenderam nesse quartel”. Freire conta que o comandante ficou sem resposta, chamou um soldado e lhe mandou de volta para a cela. Aos que bradam a expulsão de Freire das escolas e universidades devemos responder com mais Freire e não com menos. Se tivéssemos conseguido fazer o legado de Freire mais encarnado em nossa educação, certos ressurgimentos obscurantistas teriam muito mais dificuldades de renascer das cinzas de um passado autoritário de triste lembrança. Pelo menos para mim.