O giro do Girardon. ‘Somente por hoje não vou beber’

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FOTOS: RAFAEL ANTUNES.

Professor lança livro sobre o alcoolismo
O professor santiaguense Gilberto Girardon enfrentou problemas com o alcoolismo por anos. Após vencer o vício, resolveu publicar sua história no livro Rendição e Redenção – A Vitória da Vida em Tempos Extremos. Na obra, o autor conta sua história de dor e tristeza, mas também relata a vitória, superação e felicidade, mostrando que sempre é possível dar a volta por cima. A sessão de autógrafos foi na nesta sexta, 26, no Centro Empresarial. Girardon é engenheiro civil, professor na URI, palestrante e coach de empoderamento e recuperação pessoal.

Vivia pra beber, mas infeliz por beber
Seu primeiro porre foi aos 4 anos. Na fase adulta viu sua vida se afundar no fundo de uma garrafa. O professor Gilberto Girardon, 60 anos, afirma que em certas épocas costumava tomar duas ou três garrafas de whisky ou vodca por dia e se considerava no comando. “Não admitia pra mim mesmo que eu era um alcoólatra”, afirma.

Por que muitos não conseguem ser felizes sem o vício?
Não existe família em que não haja alguém com vício no álcool. É uma droga lícita. E os jovens adquirem o gosto pela bebida em casa. Vai se fazer uma festa, tem que ter a bebida. É cultural e muitos jovens entram nesse caminho justamente no ambiente familiar. Seja tendo uma garrafa de enfeite, de presente. Quando se convida os amigos pra uma festa, a bebida sempre chega antes. E está se dizendo aos nossos filhos que beber é bonito e faz feliz. Em minhas palestras costumo dizer que somos uma sociedade alcoólica. E muitos pais se enganam dizendo que “ah, meu filho teve contato com o álcool fora de casa”. Mas é uma mentira.

O senhor começou a beber cedo?
Sim. Meu primeiro porre foi aos 4 anos. Uma tia com problema mental me dava bebida. Lembro que acordei debaixo de uma árvore aos 4 anos tentando me curar de um porre. Sim, os jovens estão bebendo cada vez mais cedo. Aos 12 anos já tem jovens circulando com bebidas em nossas ruas. O álcool e o cigarro são portas para outras drogas.

Por que bebemos?
Vivemos numa época tão corrida e não temos tempo de vivenciar as pequenas felicidades. É porque passamos buscando a “grande felicidade”. E a bebida acaba sendo um caminho para outros tipos de emoções. Quando a pessoa está triste, bebe por isso. Quando está feliz, também bebe por isso. O álcool facilita as relações, até determinada altura. Porque é uma droga que leva à depressão.

Como a bebida afetou sua rotina?
Na minha família existiam pessoas que bebiam bastante e as festas eram regadas a bebida. A cultura do álcool sempre foi usada para representar a felicidade. E eu nunca me dei conta de que era alcoólatra. Nos últimos 10 anos chegava a tomar duas ou três garrafas de whisky ou vodca por dia. Mas dizia a mim mesmo que a hora em que quisesse, iria parar. Negava e mentia pra mim.

Houve situações das quais se arrependeu?
Sob o efeito do álcool a pessoa toma muitas atitudes erradas, sofre apagões, comete bobagens. Certa vez resolvi comprar uma camioneta zero, achando que aquilo iria me trazer felicidade. Fui na loja e comprei. Cheguei em casa, sestiei e fiquei pensando que poderia deixar a camioneta só para passeios e comprar um carro pra trabalhar. Voltei lá e comprei o carro. Qual pessoa em sã consciência compra dois carros zero no mesmo dia? E certamente fiz muitas outras bobagens.

Como foi o apoio da família e dos amigos?
Se hoje estou bem, devo a eles: aos amigos e a família. Pai, mãe, esposa, enfim. Tive pessoas que acreditaram em mim quando eu próprio já não acreditava. Às vezes não é ter muitos amigos, mas poucos que valem por muitos.

Fale da recuperação:
Um longo caminho. Só a partir do momento em que aceitei que era doente, alcoólatra, é que comecei a mudar. Me internei três vezes em clínicas. Na primeira, fiquei 30 dias. Saí de lá, mas houve a recaída. E ela sempre é violenta, porque abala a sua moral. Me internei de novo por mais 30 dias e cheguei a ficar três meses sem beber. Achei que era capaz de voltar a beber sem me perder pro vício, que era capaz de controlar. Fiz isso e, de novo, estava errado. Não existia nenhum controle. Ate que decidi me internar por nove meses numa clínica. Precisava sair do ambiente em que vivia, abandonar a rotina.

O que a clínica fez pelo senhor?
Relutei pra ir, porque achava que perderia nove meses de minha vida, mas não. Estava era recuperando a minha vida. Lá tu tem horário pra tudo. Tudo tem rigor e disciplina e tu precisa aprender a seguir regras. Não é algo que acontece em 30 dias, mas num período maior pra virar hábito. Recuperei o hábito da leitura, mudei meu comportamento, voltei a ter controle sobre meus pensamentos. Tu tem que lavar a roupa, cozinhar, ir pra lavoura. Foi fantástico.

“Somente por hoje, não vou beber”
Um dia antes de sair da clínica saí para passear na praia. E me dei conta de uma grande verdade. Não posso me preocupar com o amanhã, não adianta pensar como vão ser as coisas ou como vou estar daqui a 10 anos. Preciso é viver um dia de cada vez, ter controle sobre ele. É dessa maneira, deixando de viver sem o álcool um dia por vez, que se consegue vencer. Então, somente por hoje não vou beber.

Contatos com o autor: Whats (55) 99975-2657.

Assista à entrevista no Canal Expresso no Youtube.