Primavera brasileira ou Inverno tenebroso?

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(Valdo Barcelos)
Recebi recentemente uma mensagem que me fez refletir e que deu origem a esta crônica. A mensagem dizia o seguinte: “se no Brasil nós fôssemos para as ruas protestar cada vez que a polícia matasse um jovem, uma criança negra, pobre e moradora de nossas periferias urbanas, teríamos que ficar morando nelas”. A frase é de uma simplicidade que chega a doer. É o que chamo de certeira. Ela se referia aos protestos que estão tomando conta das ruas das cidades dos Estados Unidos (EUA) nos últimos dias. Protestos que, mais uma vez, se devem ao assassinato de um homem negro, George Floyd, morto por um policial branco, Derek Chauvin em Mineápolis dia 25 de maio.

O cidadão negro estava contido, jogado ao solo e algemado. A cena foi assistida por outros policiais brancos que nada fizeram para impedir o covarde assassinato. Simplesmente assistiram. George Floyd foi sufocado por mais de oito minutos pelo joelho do policial que não parou nem mesmo enquanto o cidadão negro repetia várias vezes: “I can’t breathe/eu não consigo respirar”.

Fatos como esse se repetem nos EUA com certa regularidade e costumam causar grandes manifestações no país. Em alguns casos, as manifestações acontecem meses, até anos após as violências terem acontecido. É quando os policiais violentos são levados a julgamento e, via de regra, inocentados. Isso mostra como o preconceito e a violência seletiva da polícia na maior democracia do mundo são uma teoria, não passam de um discurso.

Há que ressaltar que os EUA tiveram por dois mandatos presidenciais um homem negro democrata ocupando a Casa Branca. Barack Obama, um dos mais notáveis presidentes dos EUA de todos os tempos, colocou na Secretaria de Justiça uma advogada negra, Loretta Lynch, defensora dos direitos humanos e de políticas antirracistas. Pois nem assim os EUA conseguiram acabar com o preconceito racial e dar uma cara mais real e mais justa a sua democracia.

Vários analistas vêm denominando a onda de protestos contra o assassinato do cidadão negro George Floyd de Primavera norte-americana. Estão fazendo uma analogia com o que ficou conhecido como Primavera Árabe, um movimento de protestos populares no mundo Árabe ocorridos em 2011, em função da grave crise econômica, alto desemprego e falta de liberdades civis. Enfim, um movimento por democracia. Aconteceu, principalmente no Iêmen, Barein, Egito, Tunísia, Líbia, Síria. Como resultado da Primavera Árabe, ditaduras foram depostas e algumas reformas foram feitas em alguns dos países envolvidos. Outras ditaduras permaneceram intocadas.

E a Primavera norte-americana, que transformações provocará? Outras primaveras, como a atual, já aconteceram e o calendário racista segue seu ritmo macabro nos EUA. E aqui no Brasil, que nem tivemos nenhuma Primavera, quando começaremos a nos indignar com a morte de jovens, até crianças negras, por policiais nas comunidades pobres desse Brasil varonil? Brasil que foi a última nação do mundo ocidental a abolir, oficialmente, a escravidão negra. Brasil de uma elite branca racista e que começa, perigosamente, a assumir publicamente seu caráter fascista e neonazista em manifestações de apoio ao atual presidente, de ataque à democracia e às instituições democráticas como o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional.
Como se não bastasse, o atual presidente da histórica Fundação Palmares, Sérgio Camargo, chama o movimento negro de “escória maldita”. É a treva. Ao invés de primavera, parece que estamos entrando em um tenebroso inverno.