Professor(a) 365 dias do ano

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(Valdo Barcelos – Professor e escritor – UFSM)
Decidi não escrever mais sobre datas comemorativas tipo dia do professor. Via de regra, são homenageadas pessoas que nos 365 dias do ano são esquecidas. Soa-me um pouco forçado, assim tipo um pedido acanhado de desculpas. Augusto Boal (1931-2009) teatrólogo, ator e escritor foi um excelente professor. No período de exílio, durante a ditadura militar pós-64, ministrou cursos de teatro pelo mundo afora. No livro O Teatro como arte marcial, Boal conta uma comovente história. Ministrava um curso em Genebra/Suiça que durava 4 horas por semana. No último dia de curso, Boal pediu que os participantes fizessem uma avaliação do curso. Uma jovem participante, tetraplégica, em função de um grave acidente de carro se apresentou: “Professor eu viajo 3 horas de trem para vir ao curso e mais 3 para voltar todas as semanas”. Boal admirado perguntou: “Mas não é muito tempo viajando para assistir apenas quatro horas de aula”? A aluna respondeu: “Professor, essas são às quatro horas mais felizes da minha semana….farei todos os cursos que o senhor ministrar, não importa quanto tempo tenha que viajar”. Boal Chorou. Sentiu ela a aluna lhe deu uma das maiores lições de sua vida como professor, como teatrólogo, como gente. Ofereço essa crônica a todos(as) os(as) professores(as) que são professores(as) porque querem ser professore(as); que amam ser professores(as) porque não saberiam exercer outra profissão; que são professores(as) num país em que em qualquer concurso público um dos menores salários é sempre o de professor; um país em que os(as) professores(as) são muito lembrados em algumas datas/épocas. O professor Paulo Freire (1921-1997) ao ser perguntado o que queria dos dirigentes do país responde: “Queremos pouco, apenas que nos respeitem”. Cabra da mulesta esse Freire, tão perseguido por certas mentes retrógradas e tão “homenageado” por freireanos de ocasião. Por coincidência os livros Teatro do Oprimido de Boal e Pedagogia do Oprimido de Freire foram publicados no exílio na década de 70. Estranho, aqui não teve ditadura militar.