Somos gaúchos, mas é preciso entender a evolução

Somos gaúchos, mas é preciso entender a evolução

Mais uma vez a Semana Farroupilha lota CTGs. Mas será que os frequentadores sabem o que comemoramos? O que foi a Guerra dos Farrapos? Como é o tradicionalismo nos dias atuais? A resposta o Expresso foi buscar com o Cabo João (50 anos) gaúcho criado no Alegrete, professor de História, hoje morador de Santiago e atua na rádio Central FM.

O que comemoramos no 20 de Setembro?
A data nos remete ao maior levante acontecido no Brasil. Eu gostaria que fosse comemorada em 11 de setembro porque foi nesse dia, em 1836, que o herói Antônio de Sousa Neto proclamou a República Rio-grandense. Mas sendo o 20 a data maior dos gaúchos, em alusão a invasão do Bento Gonçalves tomando a capital Porto Alegre em 1835, nós temos muito o que comemorar. As causas eram justas e até hoje permeiam as nossas ânsias e angústias como brasileiros.

Quem é o Cabo João?
João Carlos Fontoura Brandolt, descendente de portugueses e alemães, nascido em Alegrete, em Passo da Picada. Sou o 2º de uma ninhada de sete. Sou professor de História, Filosofia, Sociologia e Geografia formado na Urcamp. Radialista desde 1989, compositor, com premiação em vários festivais. Também gravei sete CDs e escrevi um livro intitulado Depois da Última Porteira, e prestes a lançar Caminhantes. O apelido de Cabo João recebi aos 10 anos, na Estância Guabeju, propriedade dos meus pais de criação. O capataz me chamava de Cabinho, mas aos 13, quando fiz minha 1ª participação como ginete num rodeio, passei a ser chamado de Cabo João.

O que foi a Guerra dos Farrapos?
Um conflito entre o governo imperial e o sul-rio-grandense republicano, de 1835 a 1845. As charqueadas e as estâncias estavam produzindo pouco e os rebanhos se esgotando. O Império brasileiro já não pagava as indenizações da guerra, apesar de estar se beneficiando com as exportações de açúcar e café. Os principais produtos da província eram o charque e o gado, mas os impostos estavam exorbitantes. O centro do Brasil comprava o charque do platino, ao invés do gaúcho. Havia ainda o descaso com a manutenção de escolas e estradas. Como podemos perceber, em pleno século 21, temos os mesmos problemas.

Somos gaúchos, mas é preciso entender a evolução

Como vê o cenário tradicionalista? Os jovens continuam indo aos CTGs ou viraram “gaúchos de apartamento”?
O cenário do Movimento atual é o mesmo de 1948, quando foi criado o primeiro CTG, o 35, em Porto Alegre. A diferença está nos jovens que eram muito mais comprometidos com sua história. O século 20 foi a era das grandes construções, cessam as guerras entre Brasil, Argentina e Uruguai. Hoje temos muitas opções de entretenimentos, como a internet. Fica difícil classificar se os jovens viraram gaúchos de apartamento. Precisamos entender a evolução. O êxodo rural recolheu a gauchada de campo. Assim, é natural que cada vez menos veremos os gaúchos de verdade num CTG. Até porque este só vem pra cidade no dia do desfile. O MTG sempre foi um movimento urbano, que tem o compromisso de manter as coisas da gente de campo, mas dificilmente verás um CTG a 50 km da cidade.

Muitos falam que o CTG virou lugar de dança, comida e bebedeira”. Como avalia?
Os CTGs são lugarres de danças, comidas típicas… Lugar para manter seus filhos no seio da família. Fora isso, iríamos lá fazer o quê? Carnear uma vaca, trançar um laço, domar um cavalo xucro? É claro que percebo a necessidade de aproveitarmos melhor essas entidades, com atividades culturais, palestras e até mesmo práticas de nossa cultura tão rica.

E a questão da indumentária? Até pouco tempo as bombachas eram feitas de casimira, algodão ou tergal. Agora já se fala em bombacha de lycra.
Com relação às pilchas, temos o mesmo fenômeno da evolução. Hoje vamos nas lojas e não encontramos mais as bombachas largasdas décadas de 60, 70 e 80. Mas tudo evolui e o tradicionalismo está em evolução. Não podemos considerar que é gaúcho só o que mantém características do passado. Hoje, o peão de estância campereia com um celular na ilharga, o patrão tem computador e internet na fazenda. Então é isso, somos gaúchos sim, mas não retrógrados.

O senhor já vivenciou a Semana Farroupilha em Alegrete e Santiago. Quais as diferenças?
Cada cidade tem suas peculiaridades, culturais, étnicas, econômicas e, por isso, são distintas. Alegrete tem a vocação de manter grandes estâncias, ainda tem muito homem na atividade rural, por isso, o desfile do dia 20 é o maior do Estado, chegando a ter mais de oito mil homens a cavalo. No entanto, as atividades urbanas, são bem menos prestigiadas que em Santiago, onde os CTGs mantêm a Semana com jantar e bailes todas as noites.

Que conselho deixaria à gurizada que resiste ao CTG?
Eu não tenho conselhos, sou um aprendiz e quero saber muito da vida ainda. Mas, como sugestão, eu diria que os CTGs precisam oferecer uma programação com atividades que sejam atraentes a essa juventude que está sendo iniciada nas redes sociais, facebook, instagram, whatsapp….