A aprendizagem do beabá

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(Arlete Gudolle)
Em leitura recente, fui conduzida à infância porque também vivi fato similar ao da autora. Embora tenha entrado no colégio já alfabetizada (aprendi a ler e a escrever prematuramente, na escola rural em que minha mãe era professora), passei por todas as fases do beabá. Continha-me para não pular etapas e mostrar o quanto sabia, inclusive, em minha arrogância infantil, acreditava saber mais que a professora. Só não confessava isso por morrer de medo dela. Quem estudou no Medianeira na metade do século vinte, deve se lembrar da Irmã Carmela, um demônio vestido de freira. Talvez nem fosse tão má, mas, na visão de quem, junto com o alfabeto, recebia instruções religiosas, ser rigorosa em demasia era sinônimo de capeta.

Lembro que, junto com a aprendizagem, fui agregando, no mundo infantil, mais sabedorias do que meus pais desejavam. A malícia ainda não fazia parte de minhas vivências, mas se manifestou como uma bomba quando a professora chegou no grupo do cê. Quase nem dormi na véspera. Imaginava o que a freirinha faria após ter ensinado à classe que a junção do cê com ó dá kó. Para minha surpresa, repetia o kakekikó e nada do cê mais u. Não me contive. Perguntei à alfabetizadora quando ela ia dar o ku (cê mais u, claro!). Até hoje recordo a fúria com que a religiosa se atirou sobre uma de minhas orelhas. Para complicar ainda mais o ambiente, tentando me redimir, antes de ser arrastada da sala pela furiosa mestra, articulei isto: Turma, o ku a Irmã Carmela vai dar amanhã! Pra quê!