Balas Baianinhas e cultura

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(Arlete Gudolle)
Durante os dias em que permaneci no hospital, em noites insones, enquanto o potássio se infiltrava nas veias restaurando-me a saúde, queimava como fel e o suporte que equilibrava o líquido e soros, ao me deslocar, era como se arrastasse cruz de chumbo. Para mitigar o sofrimento, enchia o pensamento de coisas boas que vivi. Dentre tantas, recordei-me das Baianinhas, balas de coco de sabor incomparável. De tão duras, eram conhecidas como quebra-queixo. Ao recordar delas, revivi cenas junto a meu pai. Para me estimular a memória e ampliar conhecimentos, semanalmente, comprava, na Casa Sopeña, duas revistinhas diferentes chamadas Trívia. Permitia-me escolher a revista e o tema a ser estudado: cultura geral, geografia, história, literatura, ortografia, adivinhações, matemática.

Precedia assim: cada um estudava o conteúdo da sua revistinha e, em dia marcado, ocorria a competição. Comprava, também, dois sacos de balas Baianinhas. Um para ele, outro para mim. Sorteado no cara ou coroa, surgia o primeiro a ser questionado. As perguntas eram aleatórias. Se o competidor, eu ou o pai, acertássemos a resposta, ganhávamos uma bala do inquiridor. Se errássemos, perdíamos duas. De início, homem generoso e bom educador, quando não acertava a resposta, ele também errava. Percebi que assim procedia para não me desestimular. Então exigi que não deveria trapacear. Desse jeito amoroso, divertido e instigante desenvolvi o raciocínio, ampliei a cultura e me tornei muito exigente em tudo o que faço.