Caneta Parker: objeto de desejo

Caneta Parker: objeto de desejo

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(Arlete Gudolle)
Uma atividade ansiosamente esperada por mim foi o uso da caneta-tinteiro, substituta do lápis na cópia das atividades escolares. Apesar de achar chatíssimo passar a limpo as tarefas copiadas às pressas do quadro que, à época, era negro, escrevia textos de todas as disciplinas com esmerado capricho e cuidado para não borrar a página. Para isso, a cada palavra escrita, usava o mata-borrão, um material poroso que secava a tinta. Recordo ainda das incontáveis vezes em que escrevi e reescrevi textos escritos, as temidas composições, avaliadas pela professora de Português com extremo rigor, cujo valor era decrescido caso houvesse borrões ou rasuras. Elejo essa atividade minuciosa à prática de qualquer atividade com o maior empenho e paciência ensejando a perfeição no decorrer da vida.

Desde que dominei o uso da caneta-tinteiro, elegi um objeto especial para ser presenteada. Na adolescência, ganhei de aniversário uma caneta Parker 51 com pena de ouro, o top de linha no quesito caneta. Quanto cuidado e atenção dispensava a esse material escolar! Tratava-a como joia rara. Vigiava-a como cão policial temente de vê-la roubada por algum ser impiedoso. Casada, esqueci a caneta na casa paterna. Sumiu. Dessas recordações, afirmo: certas práticas escolares como cópia e criação de textos, se fossem praticadas ainda hoje, a exceção do uso da canta à tinta, os alunos teriam mais fluência na fala e na escrita. Não haveria tantas aberrações gráficas e de concordância que nos ferem olhos e ouvidos.