Irônica aceitação

Irônica aceitação

(Arlete Gudolle)
Em criança, adorava ficar doente. Nas horas de entrega às peraltices da sorte, torcia para que o médico, Aureliano de Figueiredo Pinto, não olvidasse a condição de meu padrinho e não me receitasse injeção. Caso isso fosse necessário, sabia que a mão de pluma de minha mãe amenizaria a picada e, para recompensar o sofrimento, me oferecia canja de galinha de verdade, alimentada com milho e criada no amplo pátio de minha casa. Como lanche, recebia maçã argentina, bolachinhas Maria ou salgadas e guaraná do seu Cerezer. Para completar os dias no paraíso, na ingenuidade infantil, parecia-me que a mãe era somente minha tal era o carinho e a exclusividade da atenção que me dispensava. Então, ao ser acometida por gripe, sarampo e catapora, terror das crianças, essas doenças eram vistas por mim como presságios de dedicação materna e férias forçadas da escola.

Cresci e passei a encarar qualquer ataque à saúde como resultados da falta de prevenção e punição imerecida pela longevidade. À medida que as pernas do tempo se estendem, o ato de viver pode ser uma bênção ou um terrível castigo. Mesmo sentindo que a tolerância, a sabedoria e a capacidade da resilência se ampliam em proporcionalidade aos anos vividos, as pessoas deveriam ser contempladas com o direito de envelhecer gozando de boa saúde já que morrer se constitui em irrestrita punição ao privilegiado ato de viver. Assim, chamar a velhice de idade feliz vejo isso como triste ironia cuja aceitação nem sempre revela atitude de grandeza.