Memória, esse potro chucro

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(Arlete Gudolle)
Ainda que me esforce, não consigo aceitar seres arrogantes, justiceiros, vingativos, donos da verdade, críticos, maledicentes, intrometidos e ingratos. Apesar dessas abominações, encanto-me com a vida, com as pessoas e com as imagens capturadas do passado porque aprendi a fazer disso notável instrumento de inspiração. Potro chucro que é a memória, recordei-me de uma doce menina que conheci no colégio. Encantava-me com o destemor dela diante do escárnio proveniente das estudantes ricas, das que se sentiam superiores e da capacidade dela de se insurgir contra a invisibilidade que lhe queriam imprimir. Não lhe recordo o nome. Sabia ser filha de ferroviário no mágico tempo dos trens. Embora residisse longe, era a primeira a chegar à escola, motivo de constrangimento quando me atrasava porque morava ao lado do colégio.

A admiração por ela se ampliava mais ainda no inverno, em dias de chuva e no recreio. Em manhãs geladas, mesmo sendo motivo de zombarias, portava velho casacão muito maior do que ela. Da chuva se protegia com obsoleta capa de borracha e tênis ou sapatos conservava com galochas. No recreio, enquanto a maioria dos alunos, inclusive eu, comprávamos merenda (nociva à saúde) no bar da escola, ela, de uma sacolinha bordada, retirava grossas fatias de pão caseiro recheadas com feijão ou geleia, pedaços de galinha enfarofada, frutas colhidas do seu quintal e os comia sem nenhum constrangimento. Lamento não ter usufruído de soberana amizade. Teria sido a minha melhor amiga.