Uma caixinha de surpresas

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Uma caixinha de surpresas

(Arlete Gudolle)
A memória é como flor ou folha caídas que se descolorem com a passagem do tempo. Às vezes, como uma inimiga, termina traindo o lembrador. Existe algo que nos machuque instantaneamente como termos os nossos nomes trocados? Nada fere tanto ao sermos interpelados como vovozinha, vizinha, minha senhora, tu, aí. Fico terrivelmente encabulada quando, por um triste lapso de memória, equivoco-me sobre o nome de alguém. Nessas horas de abandonos e vergonhas, sinto vontade de, com a mais potente das escavadeiras, abrir um buraco no solo e, com a rapidez dos bólidos, sumir-me da presença do ser cujo nome evolou-se e se confundiu, amalgamado na massa informe que devem ter virado os meus neurônios traidores. Ao valer-me de todos os recursos para recordar-lhe o nome, sinto uma ternura instantânea pelo esquecido e desabrocha em mim uma vontade irrefreável de ser muito amorosa para com a pessoa.

Então, como se eclodissem juntos todos os meus neurônios preguiçosos, surge um som potente, carregado de consoantes e vogais, que se me perfila na mente e sobressai do esquecido como um HEUREKA, articulado pela primeira vez e por seu original autor. Feliz, abraço o ser, cujo lapso de memória me deixou transida de medo e o chamo pelo nome como se anunciasse um vencedor. O que mais tremulo de ânsia e medo ainda é, um dia, esquecer-me do próprio nome ou das pessoas a quem amo ou admiro. Nessa hora sem graça nenhuma, que a mais pesada lápide de ferro, madeira, cimento ou latão tombe sobre mim para sempre.