Caminhoneiros e panelas

Caminhoneiros e panelas

(Giovani Pasini)
A greve dos caminhoneiros fez o Brasil parar. Enquanto se dizia que era um protesto de motoristas, a imprensa estava favorável. Depois, quando surgiu o comentário do apoio de empresários, tudo mudou. Rumores de que se tratava de um locaute (do inglês “lockout”). Em resumo, greve é movimento de trabalhadores e locaute uma paralisação de empregadores. Na realidade, por 10 dias tudo parou, menos a ideologia. A televisão passou a atacar o movimento, pois já não era uma atividade de populares, mas de burgueses maus. Sinceramente, isso não interessa em nada. Os caminhoneiros e os empresários só fazem é expressar um desagrado popular, do povo, que não é composto de classe única. O povo é o povo, morando em favela ou não; nisso Marx é o ópio do novo. O que devemos perceber é que a insatisfação dos brasileiros vem crescendo feito bactérias, dia a dia, numa contaminação que ameaça a saúde da própria democracia. Radicalismo. Falo do espectro negro que recai sobre a classe política, tão necessária a qualquer nação. Sim, os políticos são essenciais. A sua raiva, leitor, pode estar alocada sobre uma determinada figura pública, um governante, mas ela explode devido a centenas ou milhares de crápulas que representam o que nós mesmo somos: um Brasil que não respeita a autoridade, que cultua a violência e que está habituado à impunidade. Os caminhoneiros e os empresários estão certos e errados. Corretos, pois o ódio no peito e os impostos excessivos nos fazem parar. Equivocados, contudo, pois no meio deles e de nós, dentro da notícia, nas entrelinhas de acordos e reinvindicações, com certeza existem os interesseiros casuísticos que perpetuarão a pátria carcomida por uma ferrugem originária num péssimo hábito, o do “jeitinho brasileiro”. Uma panela que deveria ser batida na nossa própria cabeça.